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Orientação para pais

Quando seu filho parece perder o controle — e você sente que também está perdendo

Sobre crises emocionais e comportamentais, e por que nenhuma família precisa atravessar isso sozinha

J Juliana Ribeiro Psicóloga · Leitura de 6 min

Se você já chorou depois de uma crise do seu filho, este texto é para você.

Se já saiu de um supermercado carregando uma criança no meio de olhares de julgamento. Se já ouviu frases como "na minha época isso não acontecia", "está faltando limite" ou "é só uma birra". Se já chegou ao fim do dia exausta, sentindo culpa por ter perdido a paciência. Ou se já pensou, mesmo amando profundamente seu filho, "eu não aguento mais" — este texto também é para você.

Antes de qualquer orientação, há algo que precisamos dizer com clareza: você não é um pai ruim. Você não é uma mãe ruim. Você é alguém tentando cuidar de uma criança que, em certos momentos, enfrenta emoções tão intensas que ainda não consegue administrá-las sozinha. E isso é, de fato, muito difícil.

O que realmente acontece durante uma crise

Uma das maiores contribuições da Psicologia para a compreensão do comportamento infantil foi entender que muitas crises não são escolhas conscientes.

Quando uma criança entra em uma crise emocional intensa, seu cérebro passa a funcionar de outra forma. As áreas responsáveis pelo raciocínio, pelo autocontrole e pela resolução de problemas ficam temporariamente prejudicadas. Em outras palavras: naquele momento, a criança não está pensando como pensaria em um instante de calma.

Por isso, frases como "pare agora", "você sabe que isso é errado" ou "controle-se" costumam ter pouquíssimo efeito durante a crise. Não porque a criança não queira obedecer, mas porque ela está, ali, lutando para recuperar o próprio equilíbrio.

O que muitas vezes não enxergamos

Na maior parte das vezes, vemos apenas o comportamento: o grito, o choro, a agressão, o objeto jogado, a recusa.

Mas, por trás da crise, quase sempre existe algo maior. Pode ser uma mudança inesperada, uma frustração, uma dificuldade de comunicação, excesso de estímulos, barulho, fome, sono, ansiedade, medo, cansaço, sobrecarga emocional. A crise costuma ser o último estágio de um processo que começou bem antes do momento em que ela explode.

A dor de quem cuida também precisa ser vista

Fala-se pouco sobre o quanto essas situações machucam os cuidadores. Existe a vergonha. O medo do julgamento. O receio de estar falhando. A exaustão de viver sempre em estado de alerta.

Muitos pais e mães relatam: "eu nunca consigo relaxar", "tenho medo de sair de casa", "qualquer passeio vira motivo de ansiedade", "parece que estou sempre esperando a próxima crise". Se você se reconhece nessas frases, saiba que seus sentimentos fazem sentido. Você está diante de uma situação desafiadora — e ninguém atravessa isso de forma perfeita.

Como prevenir crises antes que elas aconteçam

A intervenção mais eficaz quase sempre acontece antes da crise.

Observe os padrões. Pergunte-se: as crises acontecem em determinados horários? Antes das refeições? Quando a rotina muda? Em ambientes muito barulhentos? Na hora de desligar as telas? Quando há muitas pessoas por perto? Você pode se surpreender ao perceber que muitos episódios seguem padrões bastante previsíveis.

Use a previsibilidade a favor. O cérebro infantil sente segurança quando sabe o que vem a seguir. Avise as mudanças com antecedência, explique as transições, use quadros visuais quando fizer sentido e mantenha rotinas consistentes. A previsibilidade reduz a ansiedade de forma significativa.

Durante a crise: o que realmente ajuda

Primeiro, cuide de você. Pode parecer estranho, mas uma criança desregulada precisa de um adulto regulado. Respire. Fale mais devagar. Reduza o tom de voz. Quanto mais calma você conseguir transmitir, maior a chance de ajudar.

Fale menos. Muitos adultos tentam explicar demais. Mas, durante a crise, é o cérebro emocional que está no comando. Frases curtas funcionam melhor:

"Estou aqui."

"Você está seguro."

"Vamos esperar passar."

"Eu vou ajudar você."

Não transforme a crise em uma batalha. A crise não é uma disputa de poder. Não existe vencedor. Quando os dois lados entram em confronto, o sofrimento só aumenta.

Depois da crise

Este é o momento de ensinar — não durante, mas depois, quando a criança já estiver calma. Converse. Nomeie as emoções. Pergunte o que aconteceu. Ajude seu filho a construir, junto com você, estratégias para a próxima vez. É nesse espaço, e não no auge da crise, que o aprendizado emocional realmente acontece.

Algo que toda família precisa ouvir

Uma crise não apaga o amor, a dedicação e o cuidado que existem nessa relação. O desenvolvimento emocional acontece justamente através dessas experiências de desorganização e reorganização. Cada vez que você acolhe, orienta e permanece presente, está ensinando algo muito maior do que controle: está ensinando segurança. E crianças que se sentem seguras aprendem, aos poucos, a se regular também.

Seu filho não é definido pelos momentos mais difíceis dele. E você também não.
J
Juliana Ribeiro
Psicóloga e neuropsicóloga da Clínica Nascente. Acompanha crianças no desenvolvimento emocional e na aprendizagem, com olhar atento ao vínculo familiar.

As crises têm pesado na rotina de vocês?

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