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Famílias reconstituídas

Madrastas e enteados: quando o amor não nasce pronto

Sobre os medos de cada um, o papel do pai e por que o vínculo se constrói na constância, não na imposição

J Juliana Ribeiro Psicóloga · Leitura de 7 min

Poucas relações familiares são tão complexas e delicadas quanto a convivência entre madrastas e enteados. Ao contrário do que muita gente imagina, o amor nem sempre surge de forma instantânea. Na maioria das vezes, ele é construído aos poucos, entre desafios, desencontros, ciúmes, mágoas e tentativas de adaptação.

Quando um novo relacionamento se forma, não são apenas duas pessoas que se unem. Histórias, perdas, expectativas e sentimentos também entram nessa nova dinâmica familiar.

Para os filhos, especialmente quando são crianças ou adolescentes, a chegada de uma madrasta pode despertar inseguranças profundas. Alguns sentem medo de perder o amor do pai, de serem substituídos ou de ver a sua família original desaparecer de vez. Mesmo quando não conseguem expressar isso com clareza, esses sentimentos podem aparecer em forma de resistência, afastamento, grosserias ou conflitos.

Para a madrasta, a situação também costuma ser difícil. Ela pode sentir que nunca é aceita, que os seus esforços não são reconhecidos e que qualquer atitude sua é interpretada de forma negativa. Muitas relatam a sensação de estar constantemente sendo testadas.

No meio de tudo isso, existe uma disputa silenciosa: quem tem razão? Quem merece mais atenção? Quem ocupa o lugar mais importante na vida do pai?

Mas famílias não deveriam funcionar como competições. O amor de um pai não é um recurso limitado que precisa ser dividido. É possível amar os filhos e construir um relacionamento saudável com uma nova companheira ao mesmo tempo.

Vale lembrar que, embora todos estejam sofrendo de alguma forma, a responsabilidade emocional maior recai sobre os adultos. Os filhos ainda estão aprendendo a lidar com as próprias emoções. A madrasta, como pessoa madura da relação, muitas vezes vai precisar agir com mais autocontrole, mesmo quando estiver magoada. Isso não significa aceitar desrespeito ou humilhações. Significa compreender que responder à agressividade com mais agressividade apenas alimenta o conflito.

Quando os enteados são adolescentes e tratam a madrasta mal

A adolescência já é uma fase marcada por mudanças emocionais intensas. Somada às questões familiares, os conflitos podem ficar ainda maiores. Se o adolescente responde com ironias, provocações ou rejeição, algumas atitudes costumam ajudar:

O papel fundamental do pai

Se existe alguém que pode fortalecer ou enfraquecer essa relação, esse alguém é o pai. Muitos homens, por medo do conflito, acabam se omitindo. Outros tentam agradar todos ao mesmo tempo e terminam não protegendo ninguém.

O pai precisa compreender que não pode exigir amor imediato entre os filhos e a companheira, porque relações levam tempo para se construir. Ao mesmo tempo, ele deve deixar claro que o respeito é obrigatório para todos os membros da família. O papel dele inclui:

Quando o pai se omite, a madrasta costuma se tornar o alvo de frustrações que deveriam ser trabalhadas dentro da família.

E quando a ex-esposa influencia negativamente?

Esse é um assunto delicado, mas real. Em algumas situações, a ex-companheira, ainda magoada pelo fim do relacionamento, pode transmitir ressentimentos aos filhos, mesmo sem perceber. Comentários negativos, críticas constantes ou disputas de lealdade podem fazer com que a criança ou o adolescente sinta que gostar da madrasta é uma forma de trair a mãe. Essa posição é extremamente dolorosa para os filhos.

Por isso, é importante que os adultos procurem separar os conflitos conjugais das relações parentais. Filhos não devem ser usados como mensageiros, aliados ou instrumentos de vingança. Quanto menos os adultos competirem entre si, mais livres os filhos vão se sentir para construir vínculos saudáveis com todos.

Para as madrastas que estão sofrendo

Se você é madrasta e sente que está exausta, frustrada ou magoada, saiba que esses sentimentos são mais comuns do que imagina. Você não precisa ser perfeita. Você não precisa conquistar todo mundo de imediato. Você não precisa disputar espaço com ninguém.

Construa a sua relação com paciência, respeito e autenticidade. Alguns vínculos levam meses, outros levam anos. Mas quase sempre o caminho mais seguro não é o da imposição, e sim o da constância.

Famílias reconstituídas não nascem prontas. Elas são construídas dia após dia, entre erros, aprendizados e recomeços.

E quando cada pessoa abre mão de ter razão o tempo todo para tentar compreender o outro, a convivência se torna mais leve, mais respeitosa e muito mais saudável para todos. Esse tema costuma despertar muita dor em todos os envolvidos, e é por isso que o acolhimento é fundamental: não existem vilões e mocinhos. Na maioria das vezes, existem pessoas tentando encontrar o seu lugar dentro de uma nova configuração familiar, carregando medos, ciúmes, saudades e expectativas que nem sempre conseguem expressar de forma saudável.

J
Juliana Ribeiro
Psicóloga e neuropsicóloga da Clínica Nascente. Acompanha crianças no desenvolvimento emocional e na aprendizagem, com olhar atento ao vínculo familiar.

A convivência em casa tem pesado?

Acompanhamos famílias em suas diferentes configurações, incluindo as reconstituídas. Existe um espaço para todos serem ouvidos, com terapia individual ou orientação familiar. Fale com a nossa equipe.

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