"Cada criança tem seu tempo." Essa frase é verdadeira em muitos momentos do desenvolvimento infantil. Mas ela também pode fazer com que sinais importantes sejam ignorados por tempo demais.
O Transtorno do Espectro Autista (TEA) não começa quando a criança entra na escola ou quando alguém dá um diagnóstico. Os sinais costumam estar presentes desde os primeiros anos de vida, mas nem sempre aparecem da forma que imaginamos.
Nem toda criança autista evita olhar nos olhos. Nem toda criança autista tem atraso importante na fala. Nem toda criança autista gosta de ficar sozinha. E justamente por isso, muitos casos passam despercebidos.
O que existe é um conjunto de pequenas características que, quando observadas juntas, contam uma história sobre a forma única como aquela criança percebe o mundo.
Os primeiros meses de vida
Ainda bebê, alguns sinais podem surgir de maneira muito sutil.
Alguns bebês parecem extremamente tranquilos e passam longos períodos sozinhos, sem buscar muito contato. Outros demonstram o oposto: irritam-se facilmente, choram muito e têm enorme dificuldade para serem acalmados.
Alguns não acompanham o rosto dos pais por muito tempo. Outros parecem não responder quando alguém sorri para eles. Há bebês que dificilmente imitam expressões faciais ou brincadeiras simples, como colocar a língua para fora ou fazer caretas.
Esses sinais, isoladamente, não fecham diagnóstico, mas merecem atenção quando aparecem em conjunto.
O olhar que nem sempre comunica
Muitas pessoas acreditam que o principal sinal do autismo é "não olhar nos olhos". Na prática, isso nem sempre acontece.
Algumas crianças olham, mas por poucos segundos. Outras olham apenas quando querem alguma coisa. Há aquelas que olham para o rosto, mas não usam esse olhar para compartilhar experiências.
Por exemplo: a criança vê um avião passando, mas não olha para o adulto para mostrar. Ganha um brinquedo novo, mas prefere explorá-lo sozinha, sem dividir aquele momento. Ela pode gostar da presença das pessoas, mas não necessariamente compartilhar atenção com elas. Esse detalhe costuma passar despercebido.
A comunicação vai muito além da fala
Existe um mito de que, se a criança fala cedo, ela não pode ser autista. Isso não é verdade.
Algumas crianças desenvolvem uma fala rica e até um vocabulário avançado, mas apresentam dificuldades em aspectos mais sutis da comunicação. Elas podem:
- não apontar para mostrar algo interessante;
- não acenar espontaneamente;
- não fazer gestos simples para pedir ajuda;
- repetir frases de desenhos ou vídeos;
- responder perguntas de forma muito literal;
- ter dificuldade para manter uma conversa;
- falar longamente sobre um único assunto;
- não compreender ironias, brincadeiras ou expressões figuradas.
Muitas vezes os pais ficam felizes porque a criança "fala muito", sem perceber que existe uma dificuldade na comunicação social.
Brincadeiras diferentes
Outro aspecto frequentemente ignorado é a forma de brincar. Enquanto outras crianças inventam histórias com bonecos ou simulam situações do cotidiano, algumas preferem organizar objetos: alinham carrinhos, separam brinquedos por cores, observam rodas girando, abrem e fecham portas repetidamente, gostam mais das partes dos brinquedos do que do brinquedo inteiro.
Isso não significa falta de inteligência. Na verdade, muitas têm excelente capacidade de observação. Elas apenas usam a brincadeira de uma maneira diferente.
Interesses intensos
É comum encontrar crianças apaixonadas por dinossauros, planetas ou carros. No TEA, esse interesse costuma ser muito mais intenso. A criança pode decorar nomes extremamente difíceis, memorizar mapas, conhecer horários, saber detalhes impressionantes sobre um único tema e, ao mesmo tempo, demonstrar pouco interesse por outros assuntos.
Sensibilidades que parecem "manha"
Um dos sinais mais negligenciados é a sensibilidade sensorial. A criança pode sofrer muito com estímulos que parecem comuns para outras pessoas: o barulho do secador, a descarga do banheiro, o liquidificador, os fogos, a etiqueta da roupa, as meias, alguns tecidos, certos cheiros, luzes muito fortes, cortar o cabelo, escovar os dentes, lavar o cabelo.
Às vezes ela não está fazendo birra. Ela realmente sente esses estímulos de forma muito mais intensa.
Da mesma forma, algumas crianças procuram sensações o tempo todo: pulam sem parar, giram, apertam objetos, gostam de abraços muito fortes ou buscam movimentos repetitivos para se organizar.
A rotina como fonte de segurança
Mudanças inesperadas podem ser extremamente difíceis: trocar o caminho da escola, mudar de copo, alterar o lugar do sofá, cancelar um passeio, mudar de professor. Tudo isso pode gerar uma grande desorganização emocional. Não porque a criança seja "teimosa", mas porque a previsibilidade traz segurança.
As crises nem sempre são birra
Muitos pais escutam: "ela faz isso porque é mal acostumada". Mas nem toda explosão emocional é uma birra.
Às vezes, a criança passou o dia inteiro tentando lidar com barulhos, mudanças, exigências sociais e estímulos excessivos. Quando chega ao limite, simplesmente não consegue mais se autorregular. Essas crises podem envolver choro intenso, gritos, tentativa de fugir, jogar objetos ou grande dificuldade para recuperar a calma.
Na escola, alguns sinais também passam despercebidos
Os professores costumam observar comportamentos importantes. Algumas crianças:
- brincam próximas dos colegas, mas não com eles;
- preferem conversar apenas com adultos;
- têm dificuldade em compreender regras sociais;
- não entendem brincadeiras coletivas;
- parecem distraídas, quando na verdade estão sobrecarregadas pelos estímulos;
- demonstram excelente memória, mas dificuldade em trabalhos em grupo;
- sofrem muito com mudanças na rotina escolar;
- parecem "mandonas" porque precisam que tudo aconteça de uma forma específica.
Esses sinais podem ser confundidos com timidez, ansiedade, desobediência ou até falta de interesse.
Cada criança é única
Nem toda criança apresentará todos esses sinais. Algumas terão apenas poucos deles. Outras apresentarão características muito marcantes.
O diagnóstico não muda quem ela é. Ele apenas ajuda a explicar as suas dificuldades e as suas fortalezas, permitindo intervenções precoces que favorecem o desenvolvimento, a autonomia e a qualidade de vida.
Se você é pai, mãe ou professor e percebe que algo chama a sua atenção no desenvolvimento de uma criança, não ignore a sua intuição. Buscar uma avaliação não significa procurar um problema. Significa buscar respostas, acolhimento e caminhos para que aquela criança receba o suporte de que precisa.