Existe uma geração inteira crescendo cercada de tecnologia, conectada o tempo todo e, paradoxalmente, cada vez mais sozinha.
São crianças e adolescentes que aparentemente têm tudo o que os pais não tiveram: acesso à informação, conforto, entretenimento e milhares de contatos nas redes sociais. Mas, por trás das portas fechadas dos quartos, muitas vezes existe uma dor silenciosa que não aparece nas fotos, não aparece nas notas da escola e nem sempre se transforma em pedidos de ajuda.
Os profissionais de saúde têm observado algo preocupante: quadros de ansiedade, depressão, isolamento social, automutilação e tentativas de autoextermínio têm aparecido cada vez mais cedo. O sofrimento emocional, que antes era mais frequente na vida adulta, hoje pode surgir ainda na infância.
"Mas meu filho está sempre no quarto. Isso é normal?"
Talvez. Mas talvez não.
Quando uma criança ou adolescente começa a apresentar alguns sinais em conjunto, isso merece atenção:
- isolar-se em excesso e passar horas trancado no quarto;
- conversar apenas com amigos ou pessoas da internet;
- não compartilhar mais os sentimentos com os pais;
- abandonar hobbies e atividades de que antes gostava;
- apresentar irritabilidade constante ou tristeza frequente;
- dormir demais ou dormir muito pouco;
- ter alterações importantes no apetite;
- mostrar medo exagerado de errar, falhar ou decepcionar;
- demonstrar desesperança em relação ao futuro;
- ficar excessivamente sensível às críticas;
- parecer "desligado" da família.
Não é "frescura". Não é "falta do que fazer". E muito menos "coisa da idade". A Sociedade Brasileira de Pediatria alerta que sinais como tristeza persistente, abandono de atividades prazerosas e comportamentos de risco podem indicar sofrimento importante e precisam ser levados a sério.
Crianças também podem ter depressão
Muitos pais ainda acreditam que a depressão é uma condição exclusiva dos adultos. Não é. E uma criança deprimida pode não parecer triste. Ela pode parecer irritada, desobediente, agressiva, desmotivada, excessivamente ansiosa, dependente das telas, cansada o tempo todo ou sem vontade de brincar.
Às vezes, por trás do "preguiçoso" existe uma criança esgotada. Por trás do "malcriado" existe alguém sofrendo. E por trás do "adolescente rebelde" pode existir alguém que simplesmente não sabe como pedir ajuda.
O medo de errar está adoecendo nossos filhos
Crianças cada vez mais novas apresentam medo de falhar. Medo de tirar notas baixas, de decepcionar os pais, de serem julgadas, de não serem bonitas o suficiente, de não serem populares, de não serem perfeitas.
Em uma sociedade de comparações constantes, muitas vivem a sensação de que nunca são boas o bastante. E quando acreditam que não podem falar sobre as próprias dores, começam a sofrer sozinhas.
As brincadeiras perigosas da internet são reais
Desafios, grupos fechados, estímulos à autolesão, cyberbullying e conteúdos que banalizam o sofrimento emocional representam riscos importantes. Além disso, a busca por aceitação e pertencimento faz com que crianças e adolescentes se exponham a situações extremamente perigosas.
O ambiente digital trouxe benefícios, mas também trouxe ameaças que muitos pais desconhecem. Acompanhar o que os filhos fazem na internet não é exagero. É cuidado.
"Meu filho conversa com os amigos, mas não conversa comigo"
Essa frase tem sido cada vez mais comum. E ela não significa que você falhou como pai ou mãe. Muitas vezes, significa que seu filho não quer preocupar ninguém, que ele acha que ninguém entenderia, que tem vergonha, ou que simplesmente não sabe colocar em palavras aquilo que sente.
Por isso, mais importante do que perguntar "está tudo bem?", às vezes é preciso dizer:
Nem tudo é psicológico
Aqui existe um ponto extremamente importante: nem sempre o sofrimento emocional começa na mente. Alterações físicas podem se manifestar como tristeza, cansaço extremo, irritabilidade, falta de concentração, ansiedade, alterações de sono, desânimo e baixo rendimento escolar.
Deficiências vitamínicas, anemia, alterações hormonais, problemas de tireoide, distúrbios do sono, alterações metabólicas e questões do desenvolvimento podem estar por trás desses sintomas. Por isso, o acompanhamento com o pediatra é fundamental.
Os números são preocupantes
A Sociedade Brasileira de Pediatria divulgou que, no Brasil, há registros de autoagressão entre adolescentes praticamente a cada dez minutos. Os especialistas alertam que esses números provavelmente são ainda maiores, por causa da subnotificação.
E por trás de cada número existe uma criança, um adolescente, uma família inteira sofrendo. Porque quando um filho adoece emocionalmente, toda a casa sofre. Os irmãos sofrem. Os pais sofrem. Os avós sofrem. E ninguém deveria carregar essa dor sozinho.
O que os pais podem fazer?
- escutar mais e julgar menos;
- fazer refeições em família sempre que possível;
- observar mudanças bruscas de comportamento;
- conhecer os amigos e os ambientes virtuais frequentados pelos filhos;
- procurar ajuda ao perceber sinais persistentes;
- não minimizar frases como "ninguém se importa comigo" ou "eu queria desaparecer";
- buscar avaliação pediátrica;
- buscar acompanhamento psicológico;
- procurar avaliação psiquiátrica quando indicada;
- cuidar também da saúde emocional dos pais.
Cuidar de uma criança é cuidar da família inteira
Nenhum pai ou mãe precisa enfrentar esse momento sozinho. Na Clínica Nascente, entendemos que, por trás de uma criança ou adolescente em sofrimento, existe uma história que merece ser ouvida com carinho, respeito e sem julgamentos.
Nosso cuidado começa pelo olhar pediátrico, investigando possíveis causas físicas e do desenvolvimento, e pode envolver psicologia, orientação familiar e, quando necessário, encaminhamentos especializados. Porque muitas vezes não é apenas uma criança que precisa de ajuda. É uma família inteira que precisa ser acolhida. E quanto mais cedo esse cuidado começa, maiores são as chances de recuperação.
Seu filho não precisa estar em uma situação extrema para merecer ajuda. Às vezes, aquele silêncio no quarto, aquele "está tudo bem" dito sem olhar nos olhos, ou aquela tristeza que parece durar mais do que deveria, já são motivos suficientes para procurar apoio.
Se precisar de ajuda agora
Se você perceber falas sobre querer desaparecer ou desistir da vida, comportamentos de autoagressão ou mudanças intensas e repentinas, procure atendimento imediatamente. Fale com alguém de confiança, acione o SAMU (192) ou o CVV pelo telefone 188, disponível 24 horas por dia, todos os dias. O sofrimento emocional em crianças e adolescentes merece atenção e tratamento precoces.