Toda criança esquece um material de vez em quando. Toda criança se distrai durante uma aula ou prefere brincar a fazer a lição de casa. Toda criança pode ser agitada em alguns momentos.
Mas quando essas dificuldades passam a acontecer quase todos os dias, em diferentes ambientes, e começam a afetar a aprendizagem, a autoestima, as amizades e a rotina da família, talvez seja hora de olhar com mais carinho para o que está acontecendo.
O TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade) não é falta de educação, preguiça, desinteresse ou ausência de limites. É uma condição do neurodesenvolvimento que interfere na forma como o cérebro organiza a atenção, controla os impulsos e regula o comportamento.
Os sinais que muitas vezes passam despercebidos
Nem sempre o TDAH aparece na criança que corre pela sala ou não consegue ficar sentada. Muitas crianças apresentam um perfil predominantemente desatento, especialmente meninas, e acabam sendo vistas apenas como distraídas, tímidas ou sonhadoras.
Observe se o seu filho, com frequência:
- parece ouvir, mas não consegue acompanhar uma conversa até o final;
- esquece instruções poucos minutos depois de ouvi-las;
- perde materiais escolares constantemente;
- deixa tarefas pela metade;
- começa várias atividades e não termina nenhuma;
- esquece recados importantes;
- tem dificuldade para copiar da lousa;
- demora muito mais que os colegas para finalizar atividades;
- erra questões por distração, mesmo sabendo o conteúdo;
- precisa que alguém fique lembrando o tempo todo do que deve fazer.
Esses comportamentos não acontecem porque ele "não quer". Muitas vezes, o cérebro simplesmente não consegue manter a atenção da maneira esperada.
Quando a hiperatividade aparece
Algumas crianças demonstram o TDAH através do corpo. Elas parecem estar sempre "ligadas no 220". É comum observar:
- dificuldade para permanecer sentadas por muito tempo;
- balançar pernas e mãos constantemente;
- levantar da carteira sem necessidade;
- correr em momentos inadequados;
- falar muito;
- interromper conversas;
- responder antes de a pergunta terminar;
- dificuldade para esperar a própria vez.
Nem sempre isso significa desobediência. Muitas vezes, é dificuldade em controlar impulsos.
A impulsividade também merece atenção
A impulsividade costuma trazer muitos conflitos. A criança pode falar sem pensar, fazer comentários inadequados, mexer nos objetos dos colegas, invadir brincadeiras, explodir emocionalmente diante de pequenas frustrações e se arrepender logo depois.
Ela frequentemente sabe o que deveria fazer, mas não consegue interromper o impulso a tempo.
Os sinais emocionais que quase ninguém percebe
O sofrimento emocional costuma ser silencioso. Depois de ouvir tantas vezes frases como "você é preguiçoso", "você não presta atenção", "seu irmão consegue" ou "você nunca termina nada", a criança começa a acreditar que realmente há algo de errado com ela.
É comum surgirem baixa autoestima, ansiedade, medo de errar, choro frequente, a sensação de ser "burra", vergonha diante dos colegas, evitação das tarefas escolares, irritabilidade e desânimo.
Às vezes, o problema maior deixa de ser o TDAH e passa a ser a dor emocional causada por anos de incompreensão.
O que observar em casa
Preste atenção se o seu filho esquece onde coloca objetos, precisa de muitos lembretes, não consegue organizar a mochila ou o quarto, inicia uma tarefa e rapidamente muda para outra, parece viver "no mundo da lua", tem dificuldade para administrar o tempo, esquece compromissos importantes, ou faz tudo muito rápido e cheio de erros, ou então demora horas para concluir tarefas simples.
Nenhum desses sinais, isoladamente, confirma um diagnóstico. O que chama atenção é a frequência, a intensidade e o impacto na vida da criança.
Como ajudar o seu filho
Seu filho precisa menos de broncas e mais de estratégias. Algumas atitudes fazem muita diferença:
- criar uma rotina previsível;
- usar listas visuais;
- dividir tarefas grandes em pequenas etapas;
- dar uma orientação por vez;
- manter contato visual antes de falar;
- elogiar o esforço, não apenas o resultado;
- celebrar as pequenas conquistas;
- organizar um ambiente com menos distrações durante os estudos;
- fazer pausas curtas entre as atividades;
- incentivar atividades físicas, que ajudam na regulação da atenção e da impulsividade.
Lembre-se: o cérebro aprende melhor quando se sente seguro, acolhido e compreendido.
Como orientar a escola
A escola é uma grande parceira. Explique aos professores que o seu filho não precisa de privilégios, mas de adaptações que favoreçam a aprendizagem dele. Algumas estratégias incluem:
- sentá-lo em um local com menos distrações;
- dar instruções curtas e objetivas;
- confirmar se ele compreendeu a tarefa;
- permitir pequenas pausas quando necessário;
- dividir atividades longas em etapas;
- valorizar o progresso individual;
- evitar expor a criança diante da turma;
- manter comunicação frequente com a família.
Quando família e escola trabalham juntas, a criança se sente muito mais segura.
E quando o adolescente pode ter TDAH?
Na adolescência, os sinais mudam. Muitas vezes a hiperatividade diminui, mas aumentam as dificuldades com organização, planejamento, memória e controle emocional.
O adolescente pode esquecer provas e trabalhos, perder prazos importantes, ter notas muito abaixo do próprio potencial, procrastinar constantemente, dormir tarde porque não consegue se organizar, ter dificuldade para iniciar tarefas, sentir-se sobrecarregado, apresentar ansiedade e achar que "não é inteligente".
Nessa fase, o sofrimento costuma ser maior, porque ele começa a se comparar com os colegas.
Como conversar sem machucar
Evite frases como "você tem algum problema?", "você precisa de tratamento", "você é diferente" ou "você nunca presta atenção". Prefira uma conversa baseada em acolhimento. Você pode dizer:
Ou:
O adolescente precisa sentir que será compreendido, e não julgado.
Quando procurar uma avaliação?
Vale buscar uma avaliação quando essas dificuldades estão presentes há bastante tempo, acontecem em casa e na escola, prejudicam a aprendizagem, afetam amizades e relacionamentos, geram sofrimento emocional e impactam a autonomia e a rotina.
O diagnóstico não serve para colocar um rótulo. Serve para compreender. E quando compreendemos, deixamos de culpar. Passamos a acolher.
Um diagnóstico não muda quem o seu filho é
Ele continua sendo criativo, curioso, inteligente, carinhoso e cheio de sonhos. O diagnóstico apenas explica por que algumas tarefas exigem tanto esforço. E, quando a criança recebe o apoio adequado, ela aprende a conhecer as próprias potencialidades, desenvolver estratégias e acreditar novamente em si mesma.