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Separação e família

Alienação parental: o que é, o que não é, e por que o conceito exige cuidado

Entre proteger o vínculo da criança e proteger quem denuncia violência — um debate que pede equilíbrio

N Equipe Clínica Nascente Psicologia e direito de família · Leitura de 7 min

Quando um casal se separa em meio a muita mágoa, é comum que a criança fique no meio do fogo cruzado. Em alguns casos, um dos pais realmente tenta minar o vínculo do filho com o outro, com comentários, narrativas distorcidas ou impedimento de contato. Esse movimento existe, machuca a criança e merece atenção.

Mas o tema "alienação parental" é mais delicado do que costuma aparecer. Antes de tratá-lo como um conceito fechado, vale entender o que ele é, o que ele não é, e por que organismos internacionais e parte da comunidade científica e jurídica vêm pedindo cautela. Aqui na Clínica Nascente, nosso compromisso é com a criança e com a avaliação imparcial, sem tomar partido antes de compreender cada história.

O que se entende por alienação parental

A ideia, em geral, descreve a interferência de um genitor na relação do filho com o outro: difamação, indução de culpa, criação de falsas narrativas, restrição de convivência. A criança, que confia nos adultos à sua volta, pode acabar absorvendo essas mensagens e se afastando afetivamente de um pai ou de uma mãe.

No Brasil, isso é regulado pela Lei 12.318/2010, a Lei de Alienação Parental. Ela se inspira no conceito formulado pelo psiquiatra norte-americano Richard Gardner nos anos 1980, que chegou a falar em uma "Síndrome de Alienação Parental".

Por que o conceito é contestado

Aqui está a parte que costuma ficar de fora, e que muda tudo.

A "Síndrome de Alienação Parental" nunca foi reconhecida como diagnóstico pelas principais classificações médicas, como a CID e o DSM. Ou seja, não há respaldo científico para tratá-la como uma doença. Além disso, a formulação original de Gardner tinha forte viés de gênero: ele descrevia as mães como "vingativas", "fanáticas" ou "paranoicas", e chegou a sugerir que denúncias de abuso sexual feitas por elas poderiam ser "falsas memórias" implantadas na criança.

Esse detalhe gera um efeito perverso, que pesquisas brasileiras vêm documentando: a mãe que denuncia violência ou abuso pode ser acusada de estar "alienando" o filho, e correr o risco de perder a guarda por isso. Estudos que analisaram mais de mil decisões judiciais mostraram que, quando alegações de alienação parental aparecem junto a casos de violência doméstica, na maioria das vezes é o pai quem levanta a alegação, muitas vezes como estratégia de defesa para desqualificar a denúncia da mãe.

Por tudo isso, a Relatora Especial da ONU sobre violência contra a mulher recomendou, em 2023, que o Brasil revisse essa legislação, e hoje há projetos em tramitação no Congresso discutindo sua revogação. O debate está aberto, e não é honesto apresentar a alienação parental como uma verdade pacífica.

Proteger não é alienar

Existe uma distinção que precisa ficar muito clara: denunciar violência, abuso ou negligência reais não é alienação parental. Proteger um filho de uma situação de risco é dever de quem cuida, e buscar ajuda nunca deveria ser punido.

A preocupação legítima com a segurança da criança não pode ser confundida com manipulação. Quando isso acontece, quem deveria estar protegido fica ainda mais exposto.

O que de fato prejudica a criança

Tirando o debate sobre o conceito e a lei, há um ponto em que praticamente todos concordam: a criança não pode ser transformada em arma de uma disputa entre adultos.

Nenhum filho deveria ser obrigado a escolher entre pai e mãe. Nenhuma criança deveria sentir que amar um significa trair o outro. Nenhum adolescente deveria ser colocado na posição de juiz dos conflitos dos adultos.

Ser usada como mensageira, espiã ou confidente das mágoas do casal pesa sobre a criança. Crescer em meio a esse conflito está associado a mais ansiedade, insegurança, baixa autoestima e dificuldade de construir vínculos de confiança ao longo da vida. As mágoas do casal pertencem ao casal, e os filhos precisam de liberdade para construir suas próprias percepções e afetos.

Como proteger os filhos numa separação

O maior desafio diante de uma separação não é provar quem está certo. É preservar a saúde emocional de quem está no meio. Algumas atitudes ajudam:

Onde a clínica entra

Esses são casos que exigem escuta cuidadosa e olhar imparcial, sem rótulos prontos. Na Clínica Nascente, acompanhamos crianças, adolescentes e famílias que atravessam separações e conflitos, com atenção tanto ao vínculo quanto à segurança de todos os envolvidos.

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Equipe Clínica Nascente
Conteúdo produzido pela equipe da Clínica Nascente, que reúne psicologia e desenvolvimento infantil para apoiar famílias de Juiz de Fora, com olhar imparcial e foco na proteção da criança.

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Conte para a nossa equipe o que você tem percebido. A gente ajuda você a proteger a saúde emocional da criança no meio dessa fase, com escuta, olhar imparcial e sem julgamentos.

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